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O caruru dos Gêmeos: fé e tradição que vem chegando ao fim na Bahia



Aos vinte e seis dias do mês de setembro de dois mil e vinte um, conforme calendário litúrgico é a data em que se comemora o dia dos santos gêmeos Cosme e Damião, da igreja católica. Na Bahia, o dia 27 é a data onde oferecem o caruru aos santos gêmeos ou para os iniciados da doutrina do candomblé para os Erês ou Ibejis.


Aos meus quarenta e tantos anos, nunca esqueci os tradicionais carurus de dona Lurdes, na Liberdade, amiga Tatai na Lapinha, que eu tive o prazer de comer, participar da festa e devoção por parte de quem oferecia a deliciosa iguaria em nome da fé. Entre as dezenas de carurus que saboreei há o que eu guardo na minha memória, o caruru da minha querida avó paterna e já falecida Antônia dos Anjos, católica fervorosa e devota de São Cosme e Damião. Desde muito cedo nunca esqueci como eram os preparativos do seu caruru, logo no início do mês de setembro como de costume vó Antônia como chamava carinhosamente, iniciava seu preparativo limpando o pequeno altar com as imagens dos santos. Do seu guarda roupa tirava sua belíssima toalha de mesa branca que era destinada apenas para o uso da festa dos gêmeos, colocada na mesa de jantar até a entrega do caruru e ninguém poderia comer nela, já que para ela iniciava ali seu rito de devoção e fé, rezando e acendendo as velas coloridas em pares no seu altar.


Começava então uma contagem regressiva até o grande dia 27 de setembro, dia do Caruru dos gêmeos médicos. Lembro que um desses grandes carurus ofertados tive o prazer de acompanhar com meu pai um dia antes os preparativos e sair para comprar os ingredientes. As orientações como de costume deveria seguir a risca, um saco de quiabo, as garrafas de dendê, os cocos secos, camarão seco, bacalhau, frango, feijão preto, milho branco, farinha de mandioca, pão, gengibre, coentro, cebola, rapadura, cana e como não podia faltar as balas de diversos sabores para serem distribuídas as crianças.


Na época todas as mulheres da família se reuniam para cortar os quiabos. As horas que antecediam o caruru já era de festa. Naquele momento eu e minhas primas e primos já comemorávamos saboreando os doces e balas sortidas, mas o melhor ainda estava por vir. Chegava o grande dia, caruru completo de dona Antônia já está pronto, contudo os primeiros a serem servidos são os santos Cosme e Damião, depois de uma pequena novena em homenagem aos mabaço, "Ó grandes protetores, Santos Cosme e Damião, ajudem-nos com o seu amor e libertem-nos de todos os males", era forrado o chão com uma toalha branca e escolhido sete meninos com as mãos devidamente lavadas para comerem juntos em uma grande bacia de alumínio recheada de caruru e seus acompanhamentos.


Ao passar dos anos é cada vez menor o número de pessoas que oferecem o caruru para Cosme e Damião pelas promessas feitas ou graças alcançadas. A tradição vem acabando devido a falta de continuidade dos filhos dos devotos e a falta de fé. A lembrança e a saudade dos momentos inesquecíveis vivido junto a família, do carinho e o amor a minha eterna avó Antônia jamais irei esquecer tais momentos, que para mim é uma tradição que desejo manter.



Valdeck Filho

Jornalista e escritor







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