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LOCKDOWN: o negacionismo dos suicídios


Quem é frequentador da Feira de São Joaquim, na Avenida Jequitaia, em Salvador, conheceu ou já ouviu falar do famoso "Feijão de Papada", esse era o apelido carinhoso dado à Adailton Carianha Vilas Boas, pelas suas fartas papadas e rosto arredondado, dono de um restaurante mantido em um pequeno box entre as ruas da Carne e da Farinha. Papada do feijão, como também era chamado, atendia seus clientes de forma especial, o almoço que ele servia como de costume era feijão acompanhado de churrasco de carnes variadas e de quebra uma tigela de barro de molho lambão (cebola, coentro, tomate, pimenta de cheiro, limão e sal a gosto).


Por mais de 10 anos, desde das 5h da manhã, quando os primeiros feirantes abriam suas barracas e bancas a espera dos primeiros clientes, Papada iniciava sua jornada de trabalho servindo os primeiros pratos de feijão em substituição do café da manhã tradicional, aos carregadores e feirantes - diga-se de passagem, quem trabalha na feira, acorda cedo para almoçar. Trabalhar na feira não é para qualquer um, não há tempo a perder muito menos para comer e sem hora para acabar.


Baiano que se preza, gosta mesmo de ir para feira comprar legumes e verduras para o cozido, o camarão seco e o dendê com bambar para o vatapá e não esquecer é claro de passar no box de Papada para comer o feijão, parada obrigatória e de encontro dos apreciadores de uma boa comida caseira e até de turistas que visitam a feira e ao saber do feijão de Papada não perdiam a oportunidade de saborear a iguaria.


Papada era de fato um personagem ímpar da Feira de São Joaquim, como tantos outros, entretanto, sua forma de tratar o cliente amistosamente, conquistava amizade antes mesmo dar a primeira garfada naquele delicioso feijão. Sou suspeito em falar, por muitas vezes pude comer aquele feijão gorduroso e cheio de sabor acompanhado do molho lambão e uma cerveja gelada, quando ele perguntava se faltava alguma coisa, respondia que não faltava nada, estava mesmo tudo perfeito, ele abria um sorriso largo e espontâneo. Boa lembrança.


A partida precoce de Papada, nos faz refletir que medidas extremas por parte de políticos, causam efeitos danosos e perdas de vidas, pior até que o coronavírus. Há um ano, empresários e pequenos comerciantes tentam recomeçar seus negócios e ganhar dinheiro para o sustento de suas famílias. O fechamento do comércio e queda de renda das milhares de famílias soteropolitanas geraram falências de centenas de empresas e a quebradeira de pequenos negócios, que ficaram sem renda e nem créditos, apenas as dividas.


Existe um ditado muito usado para quem tira seu sustento vendendo comida, "tem que vender o almoço para comer a janta", sem dúvida Papada estava passando por essa dificuldade.


Salvador, como em outras capitais, a população está sofrendo de forma pacifica a imposição de um decreto de lockdown. Prorrogado por mais 15 dias, os soteropolitanos vem sofrendo com o comércio fechado, diferente do interior do estado que ficou livre do decreto porque o governo teve medo de perder votos no seu curral eleitoral. De outro lado, parte da população da capital baiana passa fome e outra estão com suas contas atrasadas. É aquela velha história, onde como um, come dez, bem mal. Com lockdown tais medidas tornam as situações mais grave, gerando fome, violência doméstica, transtornos emocionais, paranoias e até o suicídio.


E quando a fome aperta, as contas chegam, o desespero acontece não tem homem ou mulher que não pense em colocar um ponto final em tudo isso. Infelizmente, uma atitude que só cabe a Deus julgar, pois só quem passa por uma situação como essa pode responder. Papada tirou sua vida por desespero em não poder pagar suas contas e decepcionar as pessoas que lhe confiou.


A pandemia que assolou o mundo em 2020, causou danos incalculáveis na economia mundial e as mortes em todo mundo. Embora, o vírus covid-19, não seja tão letal como outros vírus (Ébola, HIV/AIDS), quem o adquire tem cura. Embora, várias complicações respiratórias acabam levando a morte das pessoas que sofrem de outras doenças pré-existentes.


Contudo, atitude como a de Papada não foi a única nesse momento de Lockdown, milhares de pessoas passaram por esses mesmos problemas, infelizmente, não serão as últimas por conta dos políticos lesas-pátrias.

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