• Redação

Policiais civis denunciam que Corregedoria não investiga e nem pune assediadores



Ameaças, perseguições, assédio moral, sexual e até estupros são alguns casos que acontecem dentro das unidades policiais e delegacias da Bahia. Mesmo com as denúncias feitas à Corregedoria da Polícia Civil pelas vítimas, não são apuradas devidamente e os autores não são ouvidos e muito menos punidos.



Investigadores de Polícia Civil (IPC), escrivães (EPC) e até delegados lotados na Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP/BA), recorrem a Corregedoria da Polícia Civil para denunciar as constantes práticas de assédio moral e até de violência sexual, mas se deparam com a falta de compromisso em apurar os casos e o corporativismo que protegem os acusados que na sua maioria são delegados e o pior acabam fortalecidos e impunes para fazer novas vítimas.



O site Rx Notícias entrevistou dois investigadores de polícia (IPC), que nos contou como foram vítimas do assédio moral e sexual praticados pelos seus respectivos coordenadores (delegados), mas tiveram a coragem de denunciar esses predadores.



Para que os entrevistados não venham sofrer novas perseguições iremos chama-los de Papa e Charles.



Rx: Como começaram os assédios?


Papa: Iniciaram quando eu neguei de fazer uma atividade fora das minhas obrigações como policial.

Charles: No meu caso foi a insistência por me chamar de sua querida sempre quando estávamos sozinhos ou afastados dos demais colegas.


Rx: Em alguma momento você Charles o repreendeu por te chamar assim?


Charles: Não, porque é forma comum das pessoas se chamarem principalmente quando você acaba passando muito tempo trabalhando juntos, mas o pior estava por vir, ele começou a ficar olhando para meu corpo e dizendo "você está boa né, quando vamos passar o final de semana trabalhando só nós dois". Minha resposta foi reprimi-lo e colocar no lugar dele, "eu sou casada e o senhor me respeite! Depois desse dia ele começou a me ignorar e falar aos colegas que eu era displicente no trabalho, proibindo que eu tivesse acesso a minha sala de trabalho trocando de fechadura com minhas coisas.


Rx: Quais eram as formas que o seu coordenador te assediava?


Papa: Parece que os predadores fazem o curso juntos na academia. Um dia depois de uma reunião de equipe, ele me pediu para falar comigo a sós na sua sala, assim que entrei ele me fez a pergunta se eu não queria ir viajar com ele, já que ele estava com a Caminhonete (viatura descaracterizada) a sua disposição aos finais de semana, minha resposta foi que não podia por causa das últimas viagens e ficaria com a família no final de semana.


Perguntei se só era aquele assunto a tratar, ele disse que sim, sair da sala e fui ao banheiro, quando eu estava em pé no mictório, ele chegou do meu lado e me perguntou se eu não gostaria de assumir uma chefia e ter o trabalho facilitado com sua proteção, se realizasse seu sonho. Respondi que ele estava enganado ao fazer tal proposta, me compus e fui me encontrar com o resto da minha equipe.


Depois desse dia fui tirado da equipe que trabalhava e obrigado a ficar no corredor sem o direito de se quer entrar nas salas do departamento. Os colegas eram proibidos de falar comigo nas áreas internas da Secretaria de Segurança. Mesmo eu denunciando pelo assédio, ele ainda foi promovido a delegado classe especial e até hoje ele continua impune.



CASOS DE IMPUNIDADES



Entre as centenas de casos de impunidades, o que chama atenção foi o caso de uma escrivã, vítima de estupro por um delegado, fato esse ocorrido dentro de uma delegacia territorial do interior. O crime foi denunciado a Corregedoria, mas até hoje o acusado não foi punido e continua trabalhando normalmente em uma delegacia territorial de Salvador.



Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis da Bahia (Sindpoc), Eustácio Lopes, esses casos foram alguns entre outras dezenas que são reportados diariamente ao sindicato e encaminhados ao nosso setor jurídico para sejam tomadas as devidas providências contra esses assediadores, "não devemos tolerar qualquer tipo de assédio moral, muito menos admitir o assédio sexual aos colegas".



Ainda Lopes, todos os policiais e servidores que estão sendo vítimas de assédio, seja qual for, procure o nosso sindicado, "não podemos aceitar que esses predadores estejam entre nós, somos policiais e trabalhamos para combater e livrar esse tipo de gente da nossa sociedade".



"De janeiro de 2021 até a primeira quinzena de setembro, o setor jurídico do Sindpoc já recebeu cerca de trinta denúncias de IPCs vítimas de assédio moral e sexual, acredito que esses números sejam ainda maiores, devido alguns colegas terem receio de serem perseguidos ou removidos de suas unidades e os assediadores continuarem impunes", concluiu Eustácio Lopes.


O site Rx Notícias entrevistou também dois delegados que foram vítimas de assédio moral pelos seus pares e coordenadores. Entretanto, nos casos dos delegados os motivos dos assédios foram a recusa de acatar a determinação dos seus coordenadores de livrar acusados presos em flagrantes delitos, por serem amigos e parentes de políticos.



Embora, uma grande parte dos policiais civis vítimas já tenham procurado o Ministério Público da Bahia para fazerem suas representações contra os assediadores, acabaram não resultando em nada. Por um lado, os acusados utilizam de manobras para se proteger e continuarem impunes, por outro, a omissão e o corporativismo institucional perdura, mesmo a missão desse órgão seja defender a sociedade e o regime democrático para garantia da cidadania plena.

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